Primeira confissão de Diogo


Insisto em alertá-los que não me arrisco por aqui, não falaria da minha vida por trás de uma personagem, alguém podia perceber. Logo, são todos personagens, qualquer semelhança é mera coincidência.

Eu nunca escrevi diários, nunca contei segredos aos meus amigos... se é segredo não se pode contar pros amigos. Se pode contar só aos amigos é um diálogo, uma confissão de bêbado, ou algo que não sei o nome mas segredo não é. Não sei por que depois de tantos anos de vida decidi escrever um pouco de mim. Aqui é como se eu confessasse pra mim mesmo, ninguém encontrará estes rascunhos, nem sei por quanto tempo vou guardá-los.
Relembrarei comigo toda minha vida, já que não bebo mais pra relembrá-la com Antônio ou Victor pelas madrugadas da vida. Antônio, Victor e eu, Diogo, desde os 16 anos sempre mantivemos um bom relacionamento com direito à brigas, bailes e namoradas roubadas. Agora resta apenas eu, apenas Diogo, com 86 anos pra tentar lembrar.
O grande problema em preencher essas folhas em branco que restam no caderno é: por onde começar? Não sei a lembrança mais velha que tenho, as tardes impinando pipa com dois de meus irmãos, digo, Toninho e Dirceu, ou aquele primeiro dia de aula? Talvez faça parte tudo de um mesmo tempo, pipa, escola, pipa outra vez. Acho que era isso mesmo.
De sete irmãos eu era o último, o caçula, a rapinha do tacho, copinho de leite, bolinha de ouro... Minha mãe criou de forma particular cada filho, primeiro veio Geraldo criado com muito mimo e esforço, se ele queria banana e não tinha em casa, a mãe dava logo um jeito de comprar, mesmo fiado. Depois veio Ana Rita que apesar de mais nova cuidava de Geraldo, a mais bonita de todas as primas, irmãs e tias. Ana Rita possuía olhos verdes e cintilantes, um rosto fino coberto por longos cabelos castanhos escuros e pele cor de papel de pão. Depois dela nasceu Vitória, que eu não pude conhecer, pelas fotos que vi ela parecia uma indiazinha, mas não tinha os cabelos lisos, e minha mãe não lhe dava muita atenção deixou a filha se criar sozinha e aprender o que tinha que aprender na rua, ela saiu com 5 reais pra comemorar o aniversário de 6 anos e não voltou pra apagar às velas, é tudo que sei. Antes que Vitória desaparecesse minha mãe teve também o Marcelo, que foi criado com quase nenhum mimo, pouco diálogo e muita leitura recomendada por nosso avô, outro que também não conheci, Marcelo acabou por se dar bem na vida e estudou Economia, o único estudado de todos nós, quer dizer o único com curso superior. Então dona Eva perdeu Vitória e não queria ter mais filhos, se existia métodos contraceptivos ela não sabia, e acabou separando-se de Joaquim pra não ter mais filhos.
Dois anos depois de muito esforço pra criar os filhos apenas lavando roupas ela conheceu um sapateiro, Tomé, que lhe prometeu uma casa nova, comida, sola nova pros sapatos e amor, tudo em troca de sua companhia e uma filha que fosse dele também.
Foi aí que minha mãe teve Antônio (Toninho) que já nasceu moleque de rua, aprendeu a empinar pipa e nunca mais sem preocupou com o resto, depois veio DIrceu, que também não era menina, era fã do Toninho e queria fazer tudo que ele também fazia, era muito ruim de futebol e tinha cabelos lisos que nem sabemos de que lado da família vieram, assim como seus outros traços. Por último, eu. Também não nasci menina, mas minha mãe logo não podia ter mais filhos: menopausa.

(continua)

2 comentários:

Bruno Abreu 5 de novembro de 2009 22:59  

muito, muito bom!adorei, deu vontade o texto inteiro de continuar lendo. e estou curioso pra saber do resto... quero muito ler a continuação

Anônimo 6 de novembro de 2009 19:07  

Pipa... ...só brinquei uma vêz com isso. Nunca achei interessante, assim como o futebol. Imagina ser assim e ainda morar no Brasil? Eu sofri até aprender a brincar sozinho.

edo...

(de fato, acho que não falaria por trás de um personagem. poderia parecer proposital. o plano do plano do plano... ...ou coisa assim.)

Pesquisa

04/08/2009

No final de 2007 eu perdia o sono semanalmente pensando em algum texto. O cansaço físico me impedia levantar da cama para anotar os poemas, textos e frases que vinham à cabeça. Criei então o Segundo Lílian, em Junho de 2008. Postando anotações feitas na madrugada, sonhos rememorados na manhã seguinte, inspirações do meio do sono vespertino. Sem habilidade de escrita tive um blog trágico, perdi meus leitores e a vontade de escrever.
No final daquele ano resolvi criar o Insônia Registrada. Já que todos meus textos eram decididos durante a insônia, ou me tiravam o sono. Era um novo blog, pensado diferente, com novo tema, nova forma de escrita, novo visual - que já foi modificado uma dezena de vezes - além de agora um período de vida bem mais traduzível em letras.
Hoje, o blog já virou um vício. Textos, links, vídeos, descobertas, lembranças... tudo vem pra cá. Tirando o sono de quem lê também. Tamanho vício me levou a criar um blog de esportes, um de filme, participar brevemente de um blog de humor e me fez até perder a vergonha do Segundo Lílian.
Porque segundo Lílian, a insônia será registrada.