Da minha irmã

Sábado, 11 de Julho de 2009 by Lílian Alcântara , under ,

Quando mais nova eu desejava criatividade, tudo que eu queria era conseguir inventar algo que minha irmã ainda não tivesse pensado primeiro. Ouvir uma banda que ela não conhecesse, entrar num site que ela não soubesse que existia e participar de uma brincadeira que ela desejasse participar também.
O grande problema é que eu não tinha acesso à nada. Enquanto ela navegava pela internet no curso de computação, eu ouvia escondida as músicas da fita que ela tivesse deixado no som. E se ela tinha o CD dos Mamonas a fita abandonada ficava pra mim. Enquanto ela colecionava cartões telefonicos, eu me arriscava nas tampinhas de garrafa, depois nas latinhas de refrigerante/cerveja e por último os chaveiros. Me rendi aos cartões também, e hoje coleciono fotografias não tiradas (o que é caso para outro texto).
Foi ai que ganhamos um computador, e tudo começou a se igualar. Duas horas pra uma, duas horas pra outra. Eu passava duas horas entre bate-papo uol e o site do Cadê (eu ainda não conhecia o Google, e tive rejeição no início). Eu encontrava bandas que ninguém queria ouvir, letras de músicas que eu achava que entendia e tentava escrever coisas que acabavam virando cópia do que eu lia.
De plágio em plágio parei de plágiar os gostos da minha irmã. Comecei a tomar conceito sobre as coisas e parei de gostar do óbvio. E o óbvio pra mim era tudo que tivesse uma guitarra, uma bateria e um baixo (musicalmente falando). Das fitas rodadas naquele som preto e pesado guardei o óbvio Cazuza, e do resto descartei pra começar tudo outra vez.
Cartola pra cá, Ana Carolina pra lá, Falamansa pra lá, Pensador pra cá... Foi aí que parei de procurar o não-óbvio pra entender o que eu realmente procurava.

(20:48) #Lílian: não tenho este prazer que voc parece ter em musicas internacionais
(20:48) edo...:
acompanho esse ed sheeran a tres anos, sua evolução
como cantor
(20:48) #Lílian: uma das poucas bandas internacionais que realmente gostei foi beirut
(20:48) edo...: é a harmonia
(20:49) edo...:
harmonia, ordem no som, quem a maioria das musicas
brasileiras não tem
(20:49) #Lílian: só gosto quando tem algo de realmente excentrico, como beirut com aquela
sanfona (ou acordeon, não sei a diferença) dissociando a imagem que
tenho de sanfona pra forró, sertanejo e derivados
(20:50) edo...: acho que tambem não concordaremos com musica tão cedo
(20:51) #Lílian: acho que não temos a mesma visão de arte
(20:51) edo...: é
(20:51) #Lílian: pra mim arte só é plausivel de admiração quando inovadora
odeio pastiche
praxe
e regras
(20:52) #Lílian: meu unico objetivo de vida é estar sempre na contra-mão
(20:52) edo...: e eu odeio a palavra pastiche, porque não tem harmonia
sonora
(20:52) #Lílian: parece algo não-brasileiro
(20:52) edo...: o meu é sair da estrada
(20:52) #Lílian: gosto da estrada
desde que eu esteja na contra-mão e pedindo carona
(20:53) edo...: harmonia é como olhar para uma paisagem de montanhas bem
redondas e verdes com a brisa batendo
(20:54) edo...: e não é uma imagem de liberdade?
(20:54) #Lílian: gosto de ver sentido nas coisas
mesmo que o sentido seja pessoal
(20:54) #Lílian: eu li nesta curta-viagem à viçosa
(20:54) #Lílian: algo em espanhol (não vou saber escrever como estava, nem
vou arriscar o meu destreinado espanhol) que dizia que "não
és louco se pelo menos uma pessoa acredita na sua razão"
(20:55) #Lílian: ou se ao menos uma pessoa vê razão naquilo que você faz...
agora a frase me foge à memória
mas é isto a essncia
e eu acho que isso é arte
é você ter uma pessoa te ouvindo
(20:55) #Lílian: enquanto você faz o contrario do que te mandam
e quando chegar no fim
com a obra pronta
todo mundo olhar e falar "ele não estava louco, estava certo"

os mais pensativos "tava na minha cara o tempo todo e só eu
não vi"
(20:56) #Lílian: por isso admiro quem faz diferente
por isso admiro seus desenhos
eles não têm a expressão que todo mundo quer que tenha
(20:57) #Lílian: todo mundo questiona a tristeza deles, as correntes e outas
coisas mais
(20:57) #Lílian: no dia que você começar a fazer desenhos felizes, eles vão
sentir falta de algo no desenho e não saberão o que é
o mesmo com musicas e textos
(20:57) #Lílian: só quando tá diferente e inovador é que ta completo
(20:58) edo...: :) boa análise
como sempre
(20:58) edo...: vc diz coisas com sentido
(20:58) edo...: e eu fico sem ter o que dizer depois

Nem me lembro mais onde eu queria chegar.
O fato é que depois de muita influência musical, literária e de tentar tornar o óbvio que penso em excêntrico usando da técnica irônica cheguei a lugar nenhum. Percebi que fugir da influência fraterna nunca me tirou de alguma influência, e que no fim temos o mesmo gosto. Por mais que cada uma descubra separadamente, sempre concluiremos que são boas as mesmas bandas.
Então fiquem com a indicação de Lívia (ou preferem que eu indique?): Chicas.


Pazinha Azul (em outras aventuras)

Terça-feira, 7 de Julho de 2009 by Lílian Alcântara , under

Muitas vezes olhava para um animal ou uma planta e perguntava-se àquele/àquilo se podia pensar. Se o cachorro guardava lembranças, se antes de morrer re-assistiria toda sua vida e seria tão humana quanto baleia - a famosa do Graciliano. Outras vezes se perguntava se uma planta era capaz de sentir o carinho que lhe fazia, e se era capaz de entender o que era um carinho.
Ficava-se imaginando no corpo de outros objetos, querendo sentir-se planta, mesa, sol... Quando na verdade ele nunca tinha sentido-se homem, humano. Não possuía nenhuma pazinha azul, nem tinha boas recordações, vivia a buscar a natureza, sem instinto filosófico, religioso ou qualquer forma de felicidade, mesmo que enrustida.

Numa tarde destas, sem saber se era outono ou inverno resolveu sair para caçar insetos. Aos passos curtos se afastou da civilização, com sua câmera conseguia precisas imagens de joaninhas, borboletas, flores e sombras de coisas que ele nunca viria a ser.
Resolveu desviar o caminho da estrada de terra e seguir into the wild procurou entender algum tipo de lógica ou organização no crescimento daqueles raminhos de mato à beira da trilha que seguia. Depois do fim da bateria da câmera resolveu deitar lá perto do sol.
Ele não entendia porque, mas sabia que estava mais perto do sol que lá atrás. Então esparramou-se pelo chão empoeirado e ficou esperando o sol se pôr enquanto se atreviam as primeiras estrelas. Vigiava o céu esperando por cada estrela, "aquela ali surgiu agora", "nossa surgiu outra enquanto eu olhava pra lá" e o sol já estava tão longe dele, que não clareava mais.
Encheu os pulmões de ar e soltou devagarzinho, cansando-se da profissão de dono das estrelas. Pensou como gostaria de ser um pequeno príncipe e remoer três vulcõezinhos todos os dias, ou ter uma plantinha só dele para cuidar. Encheu os pulmões outra vez.
Sentiu um coração batendo tão longe que se não prestasse muita atenção não conseguia ouvi-lo. Abriu os braços e as pernas, como se fizesse um anjo de poeira (neve) e sentiu cada contorno do seu corpo. Os pés, os dedos, a poeira incrustada no cabelo, os olhos a piscarem, os cílios a quase imperceptivelmente tampando um pedaço de visão, a pele seca e rachando de frio.
Sentiu-se homem. Sentiu-se humano. E percebeu que só agora sabia o que era se sentir algo. Imaginou se as borboletas, as ovelhas, as plantas e os animais sabiam que eram o que eram. Se já tinham se sentido, ou se ele era o primeiro no mundo. Se era do instinto que todos soubessem, se era o último do mundo.
E o sol, que tanto se afastou. Parecia aquecer agora dentro dele. E já não lhe cabia mais aquela história de que o sol nasce no Japão, a não ser que cada pessoa fosse um japão particular. E tirou do bolso a pazinha azul.

Irreal

Sábado, 4 de Julho de 2009 by Lílian Alcântara , under

Faz um tempo que ando incomodada com a definição de realidade, mal me importa o que o Aurélio tem a me dizer. Depois que comecei a aprofundar meus estudos sobre Krishna ou Hare Krishnas percebi que a imaginação é a maior realidade que pode existir.
E não há uma realidade. Há realidade. Vivendo no mesmo espaço e mesmo local, uma cena simples tem infinitas realidades.
Um velho barbudo sentado à mesa de um bar olha para o menino que serve sua cachaça de hora em meia. A sua realidade é a de cliente, a de velho barbudo, a de tonto, a de superior, a de chato da mesa ao lado. Vê o menino como seu empregado, mais tarde como ladrão e não pagará os 10%.
O menino vê o velho como um problema pra mais tarde, como cliente, como homem sem banho. E se vê como superior.
Alguém entendeu?
Qual a realidade quando você come seu hamburguer e uma criança na áfrica diz o último adeus a mãe por fome? O contraste é a realidade? Então qual o contraste entre eu estar aqui escrevendo, e alguém estar apertando o botão da TV? E qual a realidade comum? Uma tela? Mas tela é realidade?
Realidade não existe (ponto).
Estou confusa debatendo trilhões de temas. Outro dia termino o raciocínio.
Ninguém quer ver o lado certo
De quem faz tudo errado
E nem lhes importa
Se seu erro
Foi um acerto pessoal
E se um dia
Voltares atrás
Não explique
O que é acerto pessoal
Porque é difícil entender
Tudo que é casual

[lixo]

Oi

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009 by Lílian Alcântara , under

Depois da breve experiência com o Twitter descobri o Tumblr. Do mesmo "criador/dono/cara/empresa/site" que o Twitter e o Wordpress. É um lugar que eu deveria fazer um blog. Mas fiz um twitter II. Tipo é mais fácil postar músicas, videos e fotos que qualquer outro lugar e tenho dito.
Então fiz quase que um blog mais-que-pessoal. Tipo: "Reclamações de uma vida irreclamável" ? Tá, menos. Enfim... fiz uma porra dessas. Não sei pra que serve nem quem tem. Sei que vou ficar reclamando da vida por lá. Eu acho que ninguém lê o que tá escrito lá, então não vou ligar de falar o que realmente acho. Q
Mentira também, foi só pra atrair gente.
Oh. O negócio é entrar em tumblr.com e criar o seu. Depois acessa http://lilianalcantara.tumblr.com/ e clica lá no canto onde vai ter algo como Follow e um "+" ai clica lá e vai receber o dia todo o que eu escrever. Isso não é inútil?
Então beijos fui.
Continuarei sem escrever até passar meus estresses.
E o Inter é muito pau no cu e perdeu pro curingão.
Ainda bem que não teve aula hoje. Porque suportar curintiano gritando "timão" na minha cabeça e secando o jogo do Cruzeiro de hoje a noite com o Graymio não ia ser legal.
No mais, sem menos.

Super-homem não. Pernalonga sim.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009 by Lílian Alcântara , under

De: 28/05 (19:23)

Naquele tempo meu pai trabalhava em Realeza, acordava todos os dias às 5 da manhã, preparava-se e pegava a estrada. Por um tempo foi de ônibus, outro de carro. Não sei se nesta época ele ia de carro ou ônibus, mas provavelmente parava na padaria Massa Real e comia um salgado, ou algo que lhe relembrasse sua infância.

Sempre percebi que meu pai gosta bastante de padaria, pelo que ele conta acho que é porque quando criança ele não tinha lá muitas oportunidades para experimentar aqueles salgados e doces da vitrine. O mais próximo que experimentava eram os doces feitos por minha avó e as tias dele.

O fato é que ele saía às 5 da manhã e só voltava às 19 horas, chegava em casa bem cansado. Me pegava no colo e enchia minhas mãos com algo que tivesse comprado no caminho, fosse bala, chocolate, chiclete, pirulito, um biscoito ou como eu preferia chamar: coisa.

Eu vinha lá da sala de TV até a porta da cozinha, como se fosse um grande percurso, e gritava feliz:

_ Pai tloce coisa? Tloce coisa?

Se meu grito de felicidade na esperança de comer tudo que minha mãe achava inútil e dizia não ter dinheiro para comprar não fosse suficiente pra comovê-lo quando não trazia nada, meus braços cruzados e bico de criança embirrada faziam-se suficientes para que ele fosse até o lugar mais próximo e comprasse uma bala, pelo menos. Exceto nas segundas-feiras.

Meu pai incentivava minha infância, talvez por saudade da dele. Talvez por ser o jeito dele mesmo. Não me negava muita coisa, só quando minha mãe acenava que não pelas minhas costas ou quando ele realmente não tinha dinheiro. Por isso meu pai e eu éramos tão amigos.

E eu quase não percebia que esperava com ansiedade pelos fins de semana, só pra sentar no colo dele, ganhar o chocolate que eu escolhesse na vitrine e ir pros bares sendo exibida pros amigos dele como um trofeuzinho que falava. Ainda assim eu me sentia carente de pai, afinal não adiantava eu desenhar a tarde toda se nunca encontraria tempo pra mostrar pra ele.

Nunca pensei em considera-lo como herói. Até porque heróis eram homens como o Super Homem, que por sinal era um desenho muito chato, “o meeeeeeeu pai” me ensinava a gostar de Pernalonga – nosso desenho preferido – e de ler revistinhas em quadrinhos.

O grande erro na receita toda foi eu ter crescido. Mesmo que aos doze anos ele ainda me chamasse de “teco-teco”, e aos quinze de “tchuca-tchuca”, nós dois sabíamos que eu tinha crescido e ele envelhecido. Ele não tinha mais pique pra me trazer no colo da sala de TV até o quarto quando eu pegava no sono, e eu não tinha mais coragem de fingir que tinha pegado no sono só pra ele me trazer; a noite quando eu acordava não tinha nenhum sinal de que meu pai tinha passado pelo quarto, como ele ter feito conchinha de lençol em mim. Por falar em conchinha, ele nunca mais fez “trouxinha de alface” e colocou na minha boca me pedindo pra adivinhar o que tinha dentro.

Mas hoje, quando sentei na varanda – lugar da casa que ninguém nunca vai, a não ser pra estender a toalha, e não sei como aprendi a gostar de lá – e fiquei lendo o resto de um livro, vi dois postes acenderem lentamente. Primeiro eles dão uma piscadinha, ai ficam com uma luz bem fraquinha, um pouco roxa, depois acendem de vez em três piques. E os postes acendendo meu pai só mostrou uma vez, quando ele me contou que ele assistia os postes acendendo quase todos os dias, depois que ficava escuro demais pra jogar futebol, ou quem sabe – e esta parte ele não contou – enamorar as prateleiras da padaria.

* não sei se já postei

Aos cuidados de sua dama

Terça-feira, 23 de Junho de 2009 by Lílian Alcântara , under


Finalmente me ocorreu um texto. (Semi-baseado em fatos reais contados por terceiros, ou quartos).

O homem pendurava sob a idade que dizem "velho demais" quando vai na boate, ou arruma uma "namoradinha nova". E que dizem "tão novo" se morre. Sim, ele perambulava entre seus 45 ou 50 anos. De fato já não ia a boates nem mantinha alguma namorada nova, desde que descobriu-se com câncer.
A ex-mulher, tão atual como nunca, o mantinha vivo. Dava-lhe os remédios na hora certa, a comida pela sonda, levantava ou abaixava o travesseiro, abria e fechava a janela, dava-lhe o banho e ligava uma vitrolinha velha às vezes para que ele não esquecesse a letra de sua canção preferida - Vida de gado - Zé Ramalho.
Depois de 3 anos sob o cuidado de sua "ex-mulher" ele finalmente percebeu o que encontrou naqueles olhos por tanto tempo de sua vida. É que depois de separados ele se perguntava cotidianamente o porque de ter-se casado com ela. E divulgava a teoria:
_ Quando se casa a mulher está nova, mas se você se casa tem de aceitar o envelhecimento dela. Mas posso continuar namorando com a mesma jovem para o resto da vida se eu nunca me casar com ela, e de dois em dois anos essa jovem pode até trocar de nome, endereço... - e ria alto.
Agora ali entre a morte e a falta de vida não conseguia ver felicidade na vida boêmia, sonhava em poder envelhecer e trocaria tudo que tinha feito durante os tempos de divorciado por um dia de saúde ao lado de sua mulher. Simplesmente queria sentar com ela na beira de um lago e ensinar-lhe pescar.
Enquanto imaginava uma cura impossível e desejava ter tudo de novo para poder recomeçar do zero e recompensar sua única e fiel esposa ele percebeu a dor do lado esquerdo do pescoço. Acontece que estava virado daquele jeito fazia bastante tempo. Os olhos no olho do gato e o gato nem se movia. Tentou se virar, e antes que tentasse a mulher já estava lá virando-o como se pudesse adivinhar, e podia.
Ela estava saindo do quarto quando ele se esforçou, esticou um pouco mais os dedos. Ela parou observou seus movimentos sem entender o sinal, ainda não conhecia aquele. Aproximou-se para ver o que podia ser, pôs a mão em sua mão. E de repente ele apertou sua mão.
Apertou como no dia em que se conheceram num baile de carnaval na casa de sua prima, como apertou quando se casaram, quando nasceu o filho mais velho... os olhos fechados lacrimejavam, como no dia em que morreu o filho do meio, o dia em que foram despejados da antiga casa e o dia que se separaram. E antes que pudesse terminar de lembrar tudo ele sorriu, como só sorrira agora, o dia em que a reconheceu pela primeira vez como deveria ter feito antes de casarem-se.
Ela devolveu-lhe o aperto cobrindo sua mão com a outra mão que lhe sobrava. Deu um beijo em sua mão e acariciou-a como quem perdoa, como quem entende os reflexos do marido e como quem nunca foi ex-mulher. Só então, de olhos fechados, com toda humildade que só ela era capaz de ter, toda a força e sensibilidade que se pode encontrar em uma mulher, soltou-lhe a mão e deixou que o frio que a percorria tomasse todo o corpo do marido.
_ Também te amo! - e saiu do viúva do quarto.

* Ilustração de cópia não-autorizada. ®Edoblog.