Café Expresso

* continuação de pazinha azul

Com o tempo ele adquiriu uma louca mania de colecionar algumas coisas inúteis encontradas por aí, completava uma coleção de chaveiros encontrados pela rua, até mesmo algumas chaves, baralhos incompletos, pedrinhas coloridas, conchinhas e uma pazinha azul.
Aquele dia não era menos esperançoso que os outros, acordou disposto a andar olhando para o chão e descobrir tesouros perdidos. De um pulo levantou da cama, tomou um banho e sentou melancolicamente sobre a cama para amarrar os tênis, de um lado um All Star preto e do outro um vermelho, coisa que só percebera muito mais tarde.
Andava pela rua lendo placa por placa, observando de perto a calçada pra verificar se não continha nada, sentou em uma cafeteria com ar de ator de cinema espanhol e ficou observando a rua, mulheres apressadas equilibravam-se em seus saltos vermelhos, homens engravatados corriam de um lado à outro, os carros pareciam prestes a explodir de tanta buzina.
O cheiro de gasolina o deixava tonto, ao mesmo tempo sentia prazer no cheiro, assim como sentia prazer em folhear rapidamente as páginas dos livros, próximas ao nariz para sentir o cheiro de livro novo, ou velho. Tanto fazia.
_ Capuccino, senhor? - indicou o garçom do café tentando ser simpático com seu sorriso de comercial de manteiga  - Talvez umas rosquinhas de nata para acompanhar? - confiante de que tinha acertado o gosto do cliente esperou uma resposta afirmativa para rodar-se no calcanhar e fazer o pedido.
_ Não. Um expresso por favor, biscoitos de chocolate amanteigado para acompanhar. - e levantou a sobrancelha em tom de desafio.
Mas o garçom para não perder nem o cliente, nem o dom de adivinhação propôs:
_ Devo trazer junto o jornal do estado e um guardanapo-de-colo branco? - levantou apenas a sobrancelha esquerda. - Senhor?
_ Sim, sim. - e olhou para os pés como uma criança envergonhada, percebeu então que os tênis tinham cores diferentes, envergonhou-se um pouco mais.
O garçom finalmente saiu de sua frente. O que lhe deu maior espaço para observar as pessoas lendo el periodico de la mañana ou bebericando seus cafés, experimentando pães e rosquinhas. Uma atenção especial para um homem barbudo, de óculos redondos e terno risca de giz. Parecia um homem sábio, não bebia nada, estava apreensivo, talvez esperasse alguém, o jornal dobrado em cima da mesa certamente não fora lido.
_ Senhor? - uma pausa - Senhor? Aqui está o seu café. - só então ele acordou de suas observações, precisava escrever as cenas que assistia, como precisava.
_ Ah, obrigada.
O café foi empurrado goela a baixo por imagens aflitas das pessoas na rua, da paciência excessiva dos homens cultos frequentadores de café e da relevância de seus sapatos trocados. Mas agora tinha que ir embora, trabalhar, talvez. Pediu a conta, pagou, com direito a gorjeta para o garçom. Olhou para o colo, pegou o guardanapo assinou seu nome, colocou  data e enfiou no bolso detrás das calças. 

4 comentários:

Bruno Abreu 24 de janeiro de 2009 01:21  

Puts, Lílian, muito bom! Li esse texto ouvindo Arnaldo Antunes, por acaso, e combinou muito...
principalmente na parte do par de Al Stars colorido.

"os carros pareciam prestes a explodir de tanta buzina"

"assim como sentia prazer em... sentir o cheiro de livro novo, ou velho. Tanto fazia."

"indicou o garçom do café tentando ser simpático com seu sorriso de comercial de manteiga"

o jornal dobrado em cima da mesa certamente não fora lido"

Muito, muito bom, Lílian! Não me deu sono nenhum, apesar de já ser uma da manhã! :P

Wilson Torres Nanini 25 de janeiro de 2009 07:26  

Lílian, um dos seus melhores contos! Vc pode até a se tornar uma poeta dos melhores versos um dia, mas hoje vc já é uma poeta da melhor prosa! Se aqueles carros não explodires de buzina, eu me explodo com suas imagens precisas e preciosas. É uma delicia te ler. As metonímias evocam, em nós, não um frescor desacordado, mas uma impassibilidade atenta, principalmente quanto ao modo de se portar dos personagens: o modo de lidar com o guardanapos-de-colo, os saltos altos vermelhos... São realmente cinematográficas cenas. É preciso prender a respiração para que, num piscar de olhos, não nos perturbemos para sempre.

Anônimo 26 de janeiro de 2009 08:33  

E agora ?
O que é que eu vou falar ??

??? edo... ???

Lílian Alcântara 26 de janeiro de 2009 11:55  

Neste exato momento tem uma propaganda de "Café Expresso", puts... que feliz eu fiquei quando notei isto.

Pesquisa

04/08/2009

No final de 2007 eu perdia o sono semanalmente pensando em algum texto. O cansaço físico me impedia levantar da cama para anotar os poemas, textos e frases que vinham à cabeça. Criei então o Segundo Lílian, em Junho de 2008. Postando anotações feitas na madrugada, sonhos rememorados na manhã seguinte, inspirações do meio do sono vespertino. Sem habilidade de escrita tive um blog trágico, perdi meus leitores e a vontade de escrever.
No final daquele ano resolvi criar o Insônia Registrada. Já que todos meus textos eram decididos durante a insônia, ou me tiravam o sono. Era um novo blog, pensado diferente, com novo tema, nova forma de escrita, novo visual - que já foi modificado uma dezena de vezes - além de agora um período de vida bem mais traduzível em letras.
Hoje, o blog já virou um vício. Textos, links, vídeos, descobertas, lembranças... tudo vem pra cá. Tirando o sono de quem lê também. Tamanho vício me levou a criar um blog de esportes, um de filme, participar brevemente de um blog de humor e me fez até perder a vergonha do Segundo Lílian.
Porque segundo Lílian, a insônia será registrada.