Tentando parar de escrever,,,

Era um pequeno haikai, mas cresceu e virou um micro-poema.


Ela tinha
vários motivos
pra dormir
Mas não tinha
nenhum
pra acordar


Desatualização

Desculpem a falta de postagens e de visitas aos blogs, mas tem me faltado inspiração para escrever, para comentar e às vezes até falta de vontade de ler os blogs, ou falta de tempo. Tô engajada no projeto to Gol de Letras, me blog de futebol que tá deslanchando internet a fora, mas de acordo com o objetivo ainda precisamos chegar aos 600% de crescimento.

Falou

E quem gosta de Futebol http://gol-de-letras.esquadraointerativo.com.br/

1428

Viu a data no jornal. Apoiou os cotovelos no joelho. De lado anotou no rodapé: a data, mesmo que não fosse lembrar no dia, mesmo que não fosse ler o rodapé depois. Anotou a data do jornal, no rodapé. Na TV passava a guerra e na janela os carros. Preferiu a janela.
Um vermelho, outro branco, dois cinzas, azul marinho e um preto de luxo. Sentiu sua vida correr com os carros. Percebeu. Notou que a vida ia passando em contagem regressiva sem que soubesse em que número estava. Talvez lhe faltasse pouco. Caminhou até a casa, alongou os braços e bocejou. Espreguiçou.
A música bem baixa pra espantar a solidão. Ela estava só, mas não sentia solidão. Mesmo assim, a chuva insistiu em visitá-la. Visita é com s, pensou sozinha. Buscou um livro na estante, dois quadros na parede. Na varanda sentou ao sol, evitou as cadeiras, usou o chão.
Com os olhos percorreu a grama do vizinho, escorreu os pensamentos e anotou: 1428. Sem lembrar o motivo. Pensou em espanhol e concluiu em francês: Le Monde e sorriu achando engraçado que a paz só existia onde havia o caos. Resolveu pensar grego e tropeçou na mortalha de Penélope e procurou seu Dionísio.
Tentou lembrar de novo de onde vinha o número, não conseguindo foi dormir. Aquela noite sonhou muito, sonhou com sua velha casa, onde moravam os pais, na Rua Dionísio, São Paulo - SP, 1428, ap. 203. E acordou!

Incompleto

Incompleta
É a vida
Que termina
Sem avisar

Incompleta
È a canção
Que termina
Antes da cena

O completo
também quer mais

Teoricamente o post 180

Teoricamente 180 porque não confio no contador, e porque onde olhei conta os rascunhos que são muitos.

Eu só tava pensando sobre minha existência comecei por onde Descartes também começou, NÃO EU DEFINITIVAMENTE NÃO ESTAVA LOCALIZANDO UMA MOSCA NA PAREDE.

Mais um menos assim... Lílian vai andando pela rua, Lílian avista um Fiat Uno (de costas), Lílian mira o vidro trazeiro do Fiat Uno, Lilian se imagina entrando de cabeça pelo vidro, Lílian percebe que é só uma imaginação e conserta a postura.
Pronto, o ápice da coisa é em "Lílian percebe que é só uma imaginação". Imaginação? O que define realidade, o que define imaginação, o que define mentira? Comecei a pensar essas coisas, porque sou real, porque o Uno era real. Conclui que realidade era quando alguém além de quem está "vendo ou pensando" pode também ver e ou tocar. É real uma cena que outras pessoas puderam assistir.
Não! Sendo assim meus banhos não seriam reais, ninguém me assiste tomando banho.
Tá bom Descartes, você venceu: Penso, logo existo. Só isso, o resto é uma convenção.

Confirmado e conformada que existo fui procurar os quês, ques, porques, porquês, por ques e por quês. Desconsiderando Deus ou qualquer intervenção divina, superior, criatória e como mais puderem ligar isto à religiosidade e crenças impossíveis de confirmação pela ciência: Para que EU existo? Eu podia ser uma formiga e não ter o psicológico ativado, carregar folhas no verão, me esconder no inverno. Ou uma abelha, cheia de organização. Mas nasci humana, nasci pensante. Eu podia ser uma ecomaníaca, uma cartunista, podia ser normal e gostar de Beatles, podia ser normal e gostar de pessoas, podia ser normal e agitar com shows. Mas não, nasci alguém que se desacredita em tudo que a grande mídia crê, alguém que só escutará um CD inteiro de Beatles depois de engolir os cortes de cabelo dos mesmos, alguém que acha todo mundo muito falso, interesseiro, indiscutível e irrelacionavel, nasci alguém que só gosta de shows se forem acústicos, sentada, sem bebida cara.

EI! Pra que existo. De onde veio isto? De onde vim eu? Não falo eu "físicamente" o zigotozinho crescido. Tô falando de Lílian Alcântara, Lílian Alc, de onde veio este caralho a quatro que escuta o que eu escuto, que gosta do que eu gosto, que não gosta do que eu gosto. Como este ser se formou dentro de mim? Eu não posso ter formado este ser, porque eu sou ele, eu faço o que minhas vontade mandam, mas não sei porque estas vontades surgem.
Eu não sei pra que elas surgem.

Se alguém souber responder pelo menos o pra que eu existo manda um e-mail bem grande sem usar uma única vez a palavra Deus. Sem exemplificar consigo mesmo e principalmente sem me analisar. Só quero saber de onde "eu" vim e pra que, se souberem "até quando" ajuda um pouco.

Primeira parte - A contradição

08/12/2009 (20:16)

Os dias são apenas cargas horárias sobrepostas, começam com a hora que chamamos de meia-noite.
_ Discordo!
Ou começa com o nascer do sol às 6:00 hrs ou com o anoitecer 18:00 hrs.

Eu queria me apresentar antes de começar tudo. Hoje completam 7 anos que comunguei pela primeira vez, na Catedral de São João Batista. Não sou católica, não acredito em Deus ou deuses, estou lendo um livro espírita ditado pelo espírito Patrícia e psicografado pela médium Vera Lúcia Marinzeek de Carvalho. Esta sou eu: a contradição - em forma de pessoa, ou de diário.
A minha primeira bicicleta também foi a primeira de outras três pessoas, aprendi nela a andar sem as rodinhas, numa roça situada numa cidade à 20 Km da catedral citada anteriormente. Depois que tiram as rodinhas você acostuma a equilibrar-se sem fazer esforço: é como respirar, agora que você lembrou que respira provavelmente está se esforçando para controlar sua respiração, mas depois acostuma de novo e esquece.
Depois de tirar as rodas quis tirar as mãos. TIrar as mãos é tenso, você precisa estar confiante em você mesma, numa área mais ou menos plana e mais ou menos reta, no asfalto. Depois vai querer aprender fazer a curva sem as mãos. Depois descer o morro. Hoje, eu quis descer o morro curvo com os braços abertos em forma de cruz.
Quando eu era menor acreditava que abrir os braços na caminhonete, no barco ou no Titanic era simplesmente imitar o Cristo Redentor. Não é. Fora de uma bicicleta, um barco ou do Titanic você sentirá estas três coisas de uma só vez, raras ou nenhuma vez. E não abrirás o braço.
Sabe do que se trata tudo isso? De contradição.

Como já to indo em ordem inversa mesmo depois posto o que eu tinha planejado pra colocar na primeira folha do "diário".

Pequeno diários de conflitos de personificação

Tentei fazer um diário, tentei trocar ele com alguém. Desisti.Reli. Reanimei.

De: lilian_alcantara92@yahoo.com.br
Para: lilian_alcantara92@yahoo.com.br

10/12/2009

A melhor parte do Rum é a que queima na garganta.
A melhor parte dos relacionamentos é a que eles acabam.

Hoje não sou a contradição, talvez eu seja o masoquismo.¹ O masoquismo alheio, ou o próprio, tudo depende do ponto de vista.
Eu não sei se beber faz parte da vida ou se a vida faz parte da bebida. Às vezes eu penso que é o segundo e olho pro fundo do copo, vejo minha vida debaixo do líquido, e vou bebericando-a aos poucos.
Não sou de bebericar a vida aos poucos, é tudo mentira, eu gosto de tomar tudo num gole só. Nunca tomei um copo de leite revezando com o pão, ou é antes do pão ou é depois num gole só. O mesmo com a vida, o mesmo com a bebida.
Eu sei que tô nadando pr'um lugar mais fundo mas eu não ligo, vou nadando e só, às vezes mergulho ou pego um jacarezinho. Quando afundar afundou, fazer o que?
Mentira de novo, quando eu afundar eu vou reclamar que eu só afundo que eu queria dar pé mas não dou. Eu só não entendo porque eu posso nadar no raso e no fundo não... enquanto eu não entender vou fazendo assim, revezando entre fundo e raso. Ninguém tá entendendo nada por aqui né?
Eu sou em cima do muro. Eu adoro me arriscar, botar tudo a perder, mas quando eu perco eu volto atrás enfio a mão no cu e dou um jeito. E no fundo eu acho que gosto de ser assim. Alguém sabe meu signo pra hoje? ainda são 00:36 quero saber se o dia continua bom até o fim.

¹ No primeiro texto eu me descrevi como a contradição, quando chegar em casa posto ele.

Corra enquanto puder

Trata-se de correr.
Tudo trata-se de correr.
Correr trata-se de tempo.
Isto não é um poema, é que são parágrafos curtos.
Mas, quando você corre você tenta diminuir o tempo gasto pra ir de um ponto ao outro ou tenta superar o tempo de outra pessoa que também está correndo.

E é isso.
Você corre o tempo todo e nem se deu conta disso. Corre pelos pensamentos, corre os olhos no jornal, corre na rua, corre contra o tempo, corre de pessoas, corre pras pessoas, corre do trânsito, corre da realidade, corre da irrealidade, da moral.
Prefiro explicar falando de tempo.
Você pode fugir (correr) de tudo, de pessoas, lugares e situações. Mas em momento algum você consegue abandonar o tempo. Não importa que seja dia ou noite no Japão, o tempo é o mesmo. O tempo da Terra, o tempo geral. As horas são um artifício pra TENTAR controlar o tempo, mas se desse certo anos bissextos não existiriam. Agora o tempo é o mesmo, enquanto digito estas palavras alguém dorme, aqui são 02:42 a.m (insônia) e lá são 04:42 a.m, mas estas duas coisas ocorrem no mesmo TEMPO.
É possível viajar no espaço, no universo, no pensamento, no sonho, mas não no tempo.
É impossível controlar o tempo com um relógio, é impossível saber que "horas" realmente é em um lugar, porque não estamos à 15° exatos, as cidades não localizam-se em cima dos meridianos, nem de nenhuma outra linha imaginária, é tudo muito complexo, convenciona-se uma faixa com o mesmo horário, mas no fundo deveriam diferenciar os minutos. Mas é impossível calcular tanto assim pra saber as horas, calcular o lugar exato, pra saber a distância com Londres, e saber exatamente o horário de Londres, e lembrar que a Terra está em expansão e teríamos que recalcular as horas todos os dias.
O tempo é incontrolável, por isto é melhor correr.

Cronologicamente inviável

Aos poucos ela começou a dominar o próprio corpo, a própria mente. Usar 100% do cérebro deveria ser conseguir ser seu analista e você no mesmo segundo, pensar em futebol e conseguir explicar porque você pensa em futebol e não na sua família que tá longe. É que futebol está dentro de você como só você pode explicar. A partir do ponto que seus pensamentos e o que você consegue fazer com ele torna-se inverbalizável ou bíblico quer dizer que você está usando sua capacidade de raciocínio. Ou não!
Ela só percebeu que inventava personagens quando se tornou um deles. Sentada num banco de madeira do lado de uma gritaria qualquer ela proferia idéias bêbadas sem nem usar alcóol ou drogas. Simplesmente conseguia enganar seu cérebro pra que ficasse bêbada sem estourar os neurônios. E se sentia bem assim. O problema de usar os dois lados do cérebro ao mesmo tempo era que apesar de não acompanhar o próprio raciocínio e falar tudo numa ordem cronologicamente inviável ela ainda sabia que estava lúcida, o que queria conseguir falando aquilo e como não ia conseguir.
Então equilibrou-se no meio fio e de braços abertos foi pra casa provando que lucidez em excesso é mais que loucura. Bem mais, bem pior, talvez.

Dopping

Não importa se o seu caminho pra casa é o mais bonito do mundo, depois que acostuma você nem percebe mais. Passa direto pelas árvores, insetos, arbustos, pessoas, carros e pelo céu esverdeadamente azul-vermelho. Sem notar que a natureza muda dia após dia.
Sabe-se lá porque aquele dia voltar pra casa significava um pouco mais, era como se nunca tivesse visto nada ali, bem devagar observava cada detalhe.
Algo lhe cuspia nos ouvidos que tudo ali era diferente, diferente não se sabe de quando mas era.
Quantas pessoas já tinham caminhado por aquelas ruas? Quantos casais abraçados? Há quanto tempo plantaram aquela árvore? Aquela árvore.
Chegou mais perto do tronco largo e percebeu que haviam dois buracos na arvore como se tivessem feito com um machado, outro maior mais embaixo, na outra árvore também e em todas daquela fileira:
_ Boa noite!
Deu um pulo pra trás e caiu no asfalto.
_ Eu só posso estar sonhando, quer dizer, vocês criam vida à noite?
A placa ao pé da faixa de pedestre (um homem atravessando à rua amarela da placa) começou a passar em velocidade rápida lhe despejando mil imagens, atravessando a faixa, um tigre, uma mulher, placas de porta de banheiro, placas de animais atravessando a pista e a imagem de todas as placa que ele vira ou não em sua vida.
A lua tava linda e cheia com seu brilho prata iluminando as ruas como se fosse dia.
As lixeiras se balançavam com pressa, ventava muito, mas um vento quente.
Dois galhos trepavam no chão, faiscando sementes
_ Vá pra casa antes que a gente volte ao normal.
_ Por que?
_ Ouça o conselho de quem mais te acolhe, ouça a rua que você tanto chama de natureza.
_ Mas me diz quando vocês ficam assim.
_ O primeiro dia do último ciclo de lua nova. De 3 às 4 deste dia estaremos esperando por você aqui.
Tudo ficou preto. E a lua cheia se esvaziou. De repente.


Aliás vou recomendar um livro: Por preguiça de digitar no google o nome do livro e aprender a escrever o sobrenome do autor (o mesmo do O Mundo de Sofia) vou deixar só o nome do livro mesmo: O Curinga

Diogo

Uma ou duas semanas se passaram sob o pesar da dor da morte de minha mãe, eu sabia que aquela comida mal feita não era a dela, mas o tempo todo não me dei conta que ela não estava simplesmente doente. Muitos anos depois só me dei conta de uma coisa, por mais ausente que ela estivesse foi sempre minha mãe, e por mais presente que ele fosse nunca tive um pai. De onde vem este tipo de sentimento?
Sai de casa sem a latinha de birosca confiante em mim sai com 5 biroscas e prometi pras paredes voltar com uma lata delas.
Enquanto eu jogava o Tatu narrava como se fossem partidas de futebol:
_ De um lado pesando uma lata de biroscas Tuí, do outro com apenas 5 Biroscas Dioooogo oooo birosca, campeão mundial duas veze...
_ Cala a boca!
Tec, tec, te-tetetete-c..
Ganhei mais três:
_ Já estou com oito biroscas, faleiq ue era meu dia de sorte.
_ Calma malandrinho, hoje eu acordei com o pé direito e cuspe na testa.
_ Cuspe na testa?
_ É um rito meu...
Tatu gargalhava:
E com a cara cuspida lá Tuí vai com sua birosca azul escuro ...
_ Já não mandei calar a boca?
O que importa esta história de cuspir no dedo polegar e fazer um X na testa pra dar sorte? A história que quero contar é um pouco mais à frente, depois de perder tudo no jogo fui pra casa como fazia todos os dias:
_ Toninho, o céu da vermelho acho que vai fazer frio amanhã.
_ Vai sim.
_ Toninho...
_ Oi
_ Eu to com medo de ir pra casa...
_ O que?
_ Uma sensação ruim...
_ O Dirceu andou te falando algo???
_ Não, o que?
_ Não sei, você se sente irmão dos nossos irmãos?
_ Eles não são nossos irmãos.
_ Então a gente vai embora amanhã.
_ Vamos pra onde?
_ Leva cobertor que vai fazer frio.

Canção da canção da lua

Mãe,
eu já não sou quem eu era
agora tenho a minha guerra
a minha própria luta privada
ainda oiço à canção da lua
só já não me afasta do nada

mãe
a vida é esta merda
dela só o cheiro se herda
trocamos sonhos por qualquer porcaria
canta de novo a canção da lua
enquanto não chega o dia

Anos 90

A fita dos Mamonas Assassinas girava seu lado A no aparelho de som, uma dúzia de cachinhos balançava pra cá e pra lá sentada sobre a mesa acompanhando com os lábios todas as músicas, prevendo a ordem das. Um papel rabiscado com cara de cavalo, corpo de camelo, rabo de boi e patas de elefante era a explicação ao pai sobre o que devia ser o murilo abandonado da música do Netinho.
Na lixeira duas latas de mini-leite condensado. No peso da memória um acidente ocorrido dias antes. E os dedos cruzados esperando 0,25 centavos por gol que o Cruzeiro marcasse naquela Libertadores de 97. Inesquecível!
No segundo andar daquela casa guardava-se folhas e mais folhas de cartas de três linhas que de modo geral sempre diziam a mesma coisa. Aliás, os dois andares eram separados por grades e portões na escada com o simples intuito e nunca deixar aqueles cachinhos aloirados se lambusarem se sangue de uma - talvez - testa com quatro ou cinco pontos.
Mal sabiam eles que quando retirassem as grades o pedacinho de gente que tanto se fazia onipresente nos cômodos daquela casa se multiplicaria por três e ocuparia os dois andares e o terraço engatinhando com seus 4 sapatos, ou melhor com quatro sapatos de seus pais.
Na tv o Pernalonga ensinava um pouco mais de travessuras e esperteza. Anos mais tarde seis das 24 horas de Pernalonga seriam gravadas no seu aniversário de 40 anos. E ela nunca ia entender como aquele coelhinho tinha 40 anos, a idade de seu pai. É verdade, a idade de seu pai. Agora sim, fez sentido!
No bolso do pai o chiclete preto, nunca visto em outras décadas - nem mesmo nas próximas.
Os fins de semana reservados à aprender novos jogos de baralho, fazer compras no 1,99, visitar a padaria e comprar revistinhas em quadrinho com os saldos de saldos de gols do Cruzeiro, mal sabendo que anos depois seguraria por mais sabe-se quantos anos arfado no peito o grito de tricampeão. Maldito século novo!

Sonhos



Às vezes eu durmo pra sonhas, mas na maioria das vezes sonho sem precisar dormir. Eu vejo a cena surgir por detrás dos meus olhos depois se esmaecer. E quando me dou conta um monte de coisas aconteceram, eu acreditei em todas, mas aconteceram só pra mim e foram embora.
Dormindo ou acordada. Coleciono sonhos.
Sonhos de ambições e histórias nostalgiantes criadas pelo meu subconciente. Uma auto-biografia talvez devesse chamar "colecionadora de sonhos" (que clichê).
Nestes sonhos costumo envolver meus amigos, dou a vida que eles queriam, que eles sonharam (também). Sonho que vi cazuza e ela viu Rita. Que passei no vestibular e ele se apaixonou por alguém. Que tive filhos e ela paz, o outro dinheiro e duas outras se casaram.
No último sonho exilado - ou exalado? - pelo onisciente subconciente: duas vozes se afinaram para se encontrar sobre um violão e reproduzir então o que um dia foi o encontro de dois ídolos, eu traduzia Cazuza e do outro lado ninguém menos que Rita Lee, a platéria se materializava e desmaterializava (assim são os sonhos).
O despertador marcando tempo alertava: Cazuza e Rita nunca gravaram juntos esta música. Então a realidade desabou por cima de tud...
_ E daí? O que é realidade? O que define se uma cena foi real ou não?
Não estamos aqui agora perto do fogo?

O passado raqueteando para o presente

Prometo não postar nos próximos dias, talvez, um ou dois meses sem atualizar. Não é um descanso, tão pouco descaso. Quem dera se a insônia tivesse passado. Se fosse falta de inspiração, até porque inspirar é ser triste e expirar... ah eu não sei expirar meus textos.
Passei um tempo, escrevendo alguma coisa oculta. Destas que a gente guarda na gaveta e nunca mais se lembra. Mas quando o papel amarela e se faz encontrado, o passado nos busca à velocidade da luz e grita e berra que você lembra daquilo.
Por mais que esqueçamos nossas histórias, ela nunca deixa de existir. Mesmo que só em um livro de biografia, num filme caseiro feito pelo primo ou na lembrança de alguém que nem lembramos. E é assim, o passado sempre presente em algum lugar.

O passado nunca passa
está sempre presente
precedendo um futuro
que nunca chega
e a espera é em vão

Putas desnudas
sonhando com uma vida melhor
e as paredes
intactas
de um imóvel
na zona sul
assoviando
e cochichando
baixinho
que este filme
eu já vi

Descalços 
meus calcanhares
amassam o chão
que insiste em berrar
o vinho derramado

O passado
à todo momento
gritando
que o presente inexiste
e que a solidão
não é triste
tanto
que ela existe

Diogo (parte IV)

Já teve ter dado pra perceber que este meu caderno de anotações não vai muito longe, meu nome é Diogo, já não sou Birosca a muito tempo, já não coleciono as pequenas bolinhas de vidro. Tenho admiração por elas, bolinhas de vidro, tão bonitinhas, perfeitinhas, por que não bolinhas de plástico? Mas de vidro, esferas de gude, bolinha de gude. Resolvi pesquisar gude no dicionário, à essa altura da vida:

Gude
sm. Bras. Jogo infantil cujo fito é fazer entrarem em três buracos bolinhas de vidro.

Ah, olha eu perdendo o foco. Eu queria registrar as lembranças que tenho, mas nem todas tem continuidade, eu tentei fazê-las ter, mas não têm. Não adianta. Bom... vou continuar minha história sem conectivos de situações.

Depois de descobrir aquele sentimento frágil entre meus irmãos e eu passamos a trocar confissões antes de ir para a casa a noite.
E naquele dia o Dirceu estava nos contando que tinha fumado um cigarro com "uns caras" que ele não quis dizer o nome. Vinha pela rua narrando lentamente a primeira tosse, a sensação de paz e nostalgia. Ao fim da história Toninho caçoou dele.
_ Você fumou um cigarro e não maconha. Nada disso de paz e nostalgia seu viado.
_ Mas...
_ Mas você é viado, não agüenta nem um fumozinho...
Dobramos a esquina rindo. Na porta de casa um aglomerado de pessoas, uma pequena confusão. Uma sirene. Quando me dei conta de mim eu estava jogado na cama, olhando pro teto sem conseguir piscar os olhos. Esperava uma ordem pra que eu me movesse.
_ Diogo... a m-ma-mamãe...
_ Eu sei.
Nada seguiu. Continuei deitado, mas agora os olhos tinham se fechado e lacrimejavam, ainda bem que tava escuro.
Talvez eu nunca tenha sido muito apegado à minha mãe, nunca lhe abracei, ou troquei algum tipo de carinho, como o abraço de proteção que Dirceu me deu no dia da briga. Mas de alguma forma minha mãe era o motivo pelo qual Dirceu, Toninho e eu voltávamos em casa todas as noites.
Eu não sabia se me choro era por não ter mais minha mãe, ou por medo dos meus irmãos sairem e nunca mais voltarem.
_ Toni!
_ Que é?
_ Por que que...
_ Foi do coração...
_ Você... viu?
_ Ela falou da nossa irmã.
_ Que é com a Ana Rita?
_ A Vitória!
- Hm?
_ Ela sabe onde ela tá...
E sentei curioso esperando algo mais. Mas não era uma vírgula, tampouco um ponto final. Aquela frase só não tinha continuação e ouvi a voz de Geraldo entrando na casa.

Birosca

De alguma forma aquela confusão toda mudou muita coisa lá em casa. Meus pais passaram a nos temer, como se fossemos marginais, e nós três nos unimos como deveria ter sido desde o início. Mexeu com um, mexeu com os três.
Umas semanas depois, eu ja tinha completado meus 12 anos à 2 dias. Tava escurecendo, eu tinha ganhado uma lata de birosca numa aposta que eu faria 5 gols na pelada daquela tarde, o Luisinho duvidou e eu meti 6. Uma lata de birosca e pronto.
Eu ia subindo o morro analisando uma por uma, umas maiores, outras menores, azuis, verdes, com desenhos dentro, uma com o escudo do Botafogo e uma quebrada no canto. Cada uma serviria de uma forma diferente: leveza, tamanho, força, difícil de ser acertada, eu já ia montando meu esquema tático com minha nova seleção. Levantei a cabeça e vi Toninho conversando com um fogueteiro, me aproximei pra entender o que se passava:
_ Ai cara, experimenta um! - o de touca vermelha falava.
_ Aposto que seu irmão quer, ele é mais macho que você.
_ A gente não quer não.
Confesso que fiquei tentado, mas meu irmão me puxou pelo braço e saiu falando:
_ Eles querem algo em troca, eu sei. De graça não iam dar isto, se eles ganham pra vender.
_ O que eles querem?
_ Querem que a gente vire viciado pra comprar deles, depois a gente não tem dinheiro pra pagar e dão um tiro na cabeça de cada um.
_ E se eu experimentasse só um e nunca me viciasse?
Andamos tão rápido que eu nem percebi que já estava na porta de casa. Toninho empurrou a porta e já foi gritando por Dirceu.
_ Ele ainda não chegou, ma.. - antes que mamãe terminasse de dizer Toninho saiu com muita raiva.
_ Merda! Tomara que não o tenham feito nada.
Acho que até hoje não entendi, estes fatos devem estar interligados. Houve um murmúrio de que tinham convidado meu irmão pra entrar pro tráfico e ele não quis, talvez ofereceram maconha pra ele só disfarçando porque eu cheguei perto, talvez ele tava preocupado de raptarem DIrceu e forçar ele a entrar no tráfico. Mas eu sentia que o perigo ia vir pra cima de mim logo logo. Acho que ele também.

A insônia será fotografada

Isso mesmo, além de escrever enquanto não durmo agora tiro fotos.
A insônia será escrita com luz.
F o t o g r a f i a.

Todas as fotos tendem a ser tiradas durante a madrugada, as madrugadas insones. E serão postadas aqui


No Insônia Fotografada!

Creio que as fotos só podem ser comentadas por pessoas que possuem conta flickr (pra quem tem yahoo fica fácil). Então aqui fica meu incentivo pra fotografarem e criarem um perfil Flickr também, mesmo que apenas pra comentar.

Abraços, novidades surgirão em pouco tempo.
Aliás, quem quiser transformar "Diogo" em uma série da Globo pra passar às sextas-feiras pode ficar à vontade, quero um microapartamento em BH, Pernambuco ou Porto Alegre... e só.

Diogo e auto-criação

Cansada de criar os filhos e perdidamente apaixonada pelo meu pai minha mãe mal me deu de mamar. Aprendi a andar apoiando-me nos sofás, aprendi escalar o armário pra pegar biscoito por instinto e como andar no estranho labirinto do bairro que nasci foi seguindo Toninho.
Eu era o que segurava o carretel pro Dirceu, era uma tarefa difícil, dar o tanto certo de linha, saber pra que lado correr com a pipa pra ela subir. Quem cuida do carretel tem que tá interado das idéias de quem empina a pipa. Mas o que eu queria mesmo era dominar a minha pipa, lá no alto. Rabiola com cerol, cortar os outros, subir mais alto bem mais alto, com a pipa mais colorida do céu.
_ Toninho!
_ Que é que foi?
_ Deixa eu guiar um pouco?
_ Não tá vendo que to disputando com o Celinho?
_ Deixa eu disputar pra você?
_ Pirou moleque? Se eu perco pro Celinho vou ser zoado o resto da vida e você nunca empinou...
_ Mas eu nem tenho uma pipa...
E sai pensando como eu faria pra conseguir empinar pipa, o Dirceu nunca me emprestaria a dele e eu também não ia empinar nada com o escudo do Palmeiras.
No dia seguinte saí pra jogar birosca na rua, taí uma coisa que ninguém me vencia. Eu tava sentado com o Calinhos e o Tuí esperando o Zé e o Vando tirarem no par ou ímpar quem ia buscar a garrafa que tinha caído na casa do vizinho - fruto de uma discussão dos dois. Aí passou o DIrceu chorando, tirou a camisa jogou na minha cara e pulou no muro, fico sentado lá olhando sei lá o que:
_ Que isso Diogo vai fazer nada com essa bichinha não?
_ Bichinha é o caralho, vou te mostrar minha bicha quer?
_ Não sou bichinha que nem você, não gosto de ver pau de homem não.
_ Vai tomar no cu seu filha da puta!
E DIrceu já desceu com uma voadora no peito do Zé. Vando pulou na frente e segurou meu irmão pelos cabelos lisos que só ele tinha por ali. Eu pulei a linha de biroscas e dei um soco no peito do Vando:
_ Solta meu irmão porra!
Tomei um pontapé nas costas que até hoje não sei se foi Zé ou Carlinhos que me deu. E quando olhei pra esquina tinha uma porção de meninos correndo pro nosso lado. Toninho gritou lá do meio:
_ Quem botar a mão nos meus irmãos vai levar, é bom eu não ver nada.
Eu sorri, sabia que todo mundo tinha medo do Toninho e senti pela primeira vez o que era pra mim meus dois irmãos, os outros eu nem tinha contato direito.
Toninho:
_ Quem deu este chute aqui no Birosca? De quem é esta marca de pé? - Birosca é como Toninho me chamava às vezes.
Um pequenininho da rua que mal tinha chegado ali e morria de medo do Toninho, não lembro direito se seu nome era Ed ou Ted... Mas ele apontou pro Vando.
Ai eu gritei:
_ Eu tava batendo no Vando, foi o Zé ou o Carlinhos.
Meu irmão puxou cada um com um braço e ficou olhando pra mim aí gritou:
_ Eu vou perguntar só uma vez quem chutou o birosca? Foi uma dessas duas bichas aqui, ou vocês são homens pra assumir?
O Zé pensou em gaguejar alguma coisa e abaixou a cabeça.
_ Perdi a paciência, vão apanhar os dois que é pra ninguém mexer com irmão meu mais.
Dirceu me virou de costas e colocou meu rosto no seu ombro, eu fiquei me sentindo culpado e chorei, chorei por ter perdido meus primeiros amigos. Meu irmão tinha me defendido, mas ele não ia deixar eu ficar andando com ele pra sempre, eu ia ter que arrumar outra turma, mas ali não ia ter ninguém, e chorei um pouco mais.
Quando virei vi meu irmão voltando do chão, como num golpe de capoeira. Ele deixou um com o nariz sangrando e muita marca nas costas, o outro tinha desmaiado com um chute na nuca.

A partir daí comecei a ser alguém. Agora eu era o Birosca, pra todo mundo ali. Meu ponto fraco era chorar, chorava de tristeza, de medo, de raiva, de agonia e de solidão. E meus pontos fortes eram jogar birosca, futebol e ser irmão do Toninho...

Primeira confissão de Diogo


Insisto em alertá-los que não me arrisco por aqui, não falaria da minha vida por trás de uma personagem, alguém podia perceber. Logo, são todos personagens, qualquer semelhança é mera coincidência.

Eu nunca escrevi diários, nunca contei segredos aos meus amigos... se é segredo não se pode contar pros amigos. Se pode contar só aos amigos é um diálogo, uma confissão de bêbado, ou algo que não sei o nome mas segredo não é. Não sei por que depois de tantos anos de vida decidi escrever um pouco de mim. Aqui é como se eu confessasse pra mim mesmo, ninguém encontrará estes rascunhos, nem sei por quanto tempo vou guardá-los.
Relembrarei comigo toda minha vida, já que não bebo mais pra relembrá-la com Antônio ou Victor pelas madrugadas da vida. Antônio, Victor e eu, Diogo, desde os 16 anos sempre mantivemos um bom relacionamento com direito à brigas, bailes e namoradas roubadas. Agora resta apenas eu, apenas Diogo, com 86 anos pra tentar lembrar.
O grande problema em preencher essas folhas em branco que restam no caderno é: por onde começar? Não sei a lembrança mais velha que tenho, as tardes impinando pipa com dois de meus irmãos, digo, Toninho e Dirceu, ou aquele primeiro dia de aula? Talvez faça parte tudo de um mesmo tempo, pipa, escola, pipa outra vez. Acho que era isso mesmo.
De sete irmãos eu era o último, o caçula, a rapinha do tacho, copinho de leite, bolinha de ouro... Minha mãe criou de forma particular cada filho, primeiro veio Geraldo criado com muito mimo e esforço, se ele queria banana e não tinha em casa, a mãe dava logo um jeito de comprar, mesmo fiado. Depois veio Ana Rita que apesar de mais nova cuidava de Geraldo, a mais bonita de todas as primas, irmãs e tias. Ana Rita possuía olhos verdes e cintilantes, um rosto fino coberto por longos cabelos castanhos escuros e pele cor de papel de pão. Depois dela nasceu Vitória, que eu não pude conhecer, pelas fotos que vi ela parecia uma indiazinha, mas não tinha os cabelos lisos, e minha mãe não lhe dava muita atenção deixou a filha se criar sozinha e aprender o que tinha que aprender na rua, ela saiu com 5 reais pra comemorar o aniversário de 6 anos e não voltou pra apagar às velas, é tudo que sei. Antes que Vitória desaparecesse minha mãe teve também o Marcelo, que foi criado com quase nenhum mimo, pouco diálogo e muita leitura recomendada por nosso avô, outro que também não conheci, Marcelo acabou por se dar bem na vida e estudou Economia, o único estudado de todos nós, quer dizer o único com curso superior. Então dona Eva perdeu Vitória e não queria ter mais filhos, se existia métodos contraceptivos ela não sabia, e acabou separando-se de Joaquim pra não ter mais filhos.
Dois anos depois de muito esforço pra criar os filhos apenas lavando roupas ela conheceu um sapateiro, Tomé, que lhe prometeu uma casa nova, comida, sola nova pros sapatos e amor, tudo em troca de sua companhia e uma filha que fosse dele também.
Foi aí que minha mãe teve Antônio (Toninho) que já nasceu moleque de rua, aprendeu a empinar pipa e nunca mais sem preocupou com o resto, depois veio DIrceu, que também não era menina, era fã do Toninho e queria fazer tudo que ele também fazia, era muito ruim de futebol e tinha cabelos lisos que nem sabemos de que lado da família vieram, assim como seus outros traços. Por último, eu. Também não nasci menina, mas minha mãe logo não podia ter mais filhos: menopausa.

(continua)

Pesquisa

04/08/2009

No final de 2007 eu perdia o sono semanalmente pensando em algum texto. O cansaço físico me impedia levantar da cama para anotar os poemas, textos e frases que vinham à cabeça. Criei então o Segundo Lílian, em Junho de 2008. Postando anotações feitas na madrugada, sonhos rememorados na manhã seguinte, inspirações do meio do sono vespertino. Sem habilidade de escrita tive um blog trágico, perdi meus leitores e a vontade de escrever.
No final daquele ano resolvi criar o Insônia Registrada. Já que todos meus textos eram decididos durante a insônia, ou me tiravam o sono. Era um novo blog, pensado diferente, com novo tema, nova forma de escrita, novo visual - que já foi modificado uma dezena de vezes - além de agora um período de vida bem mais traduzível em letras.
Hoje, o blog já virou um vício. Textos, links, vídeos, descobertas, lembranças... tudo vem pra cá. Tirando o sono de quem lê também. Tamanho vício me levou a criar um blog de esportes, um de filme, participar brevemente de um blog de humor e me fez até perder a vergonha do Segundo Lílian.
Porque segundo Lílian, a insônia será registrada.