Sexta-Feira


Do prédio da frente via dois bracinhos se esticando pra fora das janela, desembaçando o vidro.Sumia. Reaparecia na outra janela. Às sextas-feiras, o braço não se esticava, não se mostrava para os vizinhos de prédio, nem no fim de semana. Quando chegava a segunda, eu estava morta de saudades. Movimentos circulares, agora verticais, por dentro, agora por fora.
De vez em quando eu via por baixo do vidro da janela os braços negros apagarem as manchas lá de baixo, da praça em frente ao prédio, a vista era perfeita, um belo ângulo. Mas não me bastava, mesmo que meu ato fosse inconciente eu precisava ver aquela cena todos os dias. E sempre via enquanto tomava meu café da tarde, ou descia pra comprar os pães.
Às vezes sentia um enorme vazio em minhas sextas-feiras, e eu não sabia o que tanto me faltava. Dias normais, nada de errado aconteceu e eu angustiada jogada aos travesseiros e ao controle remoto, sem pilhas. Só fui descobrir o que faltava em minhas tardes de sexta quando fui chamada, pela profissão, até o prédio da frente.
Entrei cautelosa observando as paredes, anotando com calma o que precisava reformar: testando tomadas, arrancando lascas de tinta da parede, acendendo e apagando luzes, visitando andar por andar, apartamento por apartamento.
Quando entrei no 602 reconheci dois braços negros me conduzindo pela casa, apontava para os lustres, pras tomadas queimadas, e o ventilador de teto com defeito. Depois saiu para a cozinha, foi limpar a janela. Terminei a vistoria pela casa, anotações no bloco, bloco no bolso. Enquanto fechava a pasta na cozinha arrisquei:
_ Trabalha aqui faz quanto tempo? - olhar forçadamente perdido.
_ Faz 3 anos. - respondeu enquanto esfregava a janela. Me aproximei.
_ Mais um relato, os vidros precisam de... de... aquele papelzinho pra deixar fumê, qual é mesmo o nome? - fiquei tentando lembrar.
_ Escurecer os vidros é? Não quero não, depois não vejo as manchas na hora de limpar, sem contar que o produto de limpeza aqui corroi aquele plastiquinho todo, demorei tirar o outro. - e me olhou com cara brava. Eu claro, olhei com uma simples expressão, mas morta de curiosidade.
_ Nossa, mas você limpa os vidros todos os dias é? - só depois percebi que a pergunta não tinha coerência com o diálogo.
_ Não, nas sextas eu não limpo. Porque tô ocupada lavando roupa e faxinando o resto da casa.

Amor, café e (in)sensibilidade



Ele me amava, e eu tomava café quente.
Seus olhos não conseguiam fixar um ponto só, olhava minhas mãos, analisava minhas orelhas, cada marca de espinha em minha testa, ponto a ponto do meu rosto, tentava entender pra onde eu olhava... arrepiava todos os pêlos do braço enquanto eu soprava o café.
Eu parava para sentir o aroma forte do café, e ele para admirar meu cheiro, suando com o vapor quente de café sobre meu rosto. Meus olhos se voltavam para dentro da xícara, conferindo quanto ainda me restava de café, os olhos dele no relógio marcando quanto tempo ainda tinha para me observar.
Descansava a xícara sobre o pires, rodava meu dedo em torno da xícara brincando de desenhar nas marcas do vapor. Ele repetia os mesmos gestos com os dedos, sem perceber desenhando círculos no balcão. Teve até mesmo uma hora, que escreveu: repetindo meus gestos, meu nome completo com um coração. Quando olhou pro balcão liso, talvez percebeu marcas de dedo e descobriu meu nome.
Enquanto desdobrava o jornal, ele se desdobrava em mil para me ver atrás das manchetes. Parecia obcecado pelos meus movimentos, olhava para mim se sentindo invisível atrás dos óculos de grau, coçava o queixo e massageava os lábios.
Virei o jornal para resolver a cruzadinha, ele virou de lado para ver o meu reflexo no espelho. Brincava com o vidro refletor supondo por a mão em minha xícara, fez até menção de alisar meus cabelos. Comecei a sentir medo. Tirei o olhar da quadriculada cruzadinha, direcionei com todo impulso pra dentro de seus olhos, ele se arrepiou.
Tentou encontrar, sem tirar os olhos de mim, sua xícara preta com café agüado. Molhou a boca, e percebeu, o café já estava frio.
Ele me amava e tomava café frio.

(já posso abrir uma sessão de textos sobre cafés e cafeterias)
Foto roubada de um álbum Picasa, cujos créditos não consegui encontrar

Tomando um bolo

Muito perfume, a melhor camisa, cabelos cuidadosamente arrumados, tudo previamente ensaiado, nenhum vacilo ou tropeço previsto. Abriu o celular de novo e releu a mensagem "eu vou, 13hrs em frente o restaurante". Apreensivo olhou o relógio de pulso e confirmou: faltavam seis minutos. Repassou todas as frases decoradas na cabeça, apalpou os bolso pra ter certeza que tinha levado tudo, celular, chave, carteira, convites pro cinema mais tarde, tudo certo. Chegou propositalmente mais cedo pra não correr risco do minímo atraso, ou diferença de relógio.
Cabelos longos e pretos balançavam bem longe, só via os cabelos não tinha certeza se era a mulher que esperava. Procurou fingir-se desatento pra não demonstrar um cara preocupado, nervoso ou apaixonado demais. Pensou em uma música qualquer para cantarolar. Não, parecia ridículo demais. Pensou em puxar um cigarro, mas e se ela odiasse cigarros? Olhou pra rua de novo, a mulher que pensava ser ela já estava bem próxima e não parecia nem um pouco com ela.
Atravessou a rua e comprou um Trident, voltou bem devagar pra passar o tempo. Não sabia mais o que fazer pra perder a ansiedade, começou a batucar os pés. Andou até o fim da rua, voltou. Foi até a outra esquina, voltou. Não sabia de que lado ela viria, olhou o relógio novamente.
_ Está atrasada três minutos. - susurrou pra si.
Ficou ali parado mais vinte minutos, se controlando pra não perder a elegância e não despentear o cabelo. Apostava consigo mesmo o tempo que ela demoraria a chegar: "mais cinco minutos e só". Quando se deu conta já eram 14:30, nada de almoço juntos, seu estômago cheio de dores, nada de convidá-la para um cinema à noite. 
Deu um passo rumo a rua para ir embora, parou e olhou em volta. O que pensariam aquelas pessoas? Todas elas viram ele esperar uma hora e trinta e seis minutos ali, iriam rir dele, tomou um bolo feio. E ele ainda esperou bem mais que qualquer pessoa esperaria, que desculpa arrumaria pra ir embora? Olhou para os lados, pegou o celular, fingiu receber uma ligação, fez cara de surpreso e foi andando com o celular ao lado da orelha. Suava para representar a cena, andava devagar para não ser muito observado.
O celular tocou de verdade, com ele ali, fingindo atender o celular. O que faria agora? Olhou para uma criança que passava com a mãe do seu lado, o menino riu. Ele se sentiu envergonhado, olhou quem estava ligando, "era ela", atendeu com raiva e... bateria fraca.

Diz a lenda que o celular ficou jogado no chão até um pouco mais tarde, quando alguém achou.

Outra vez

Quando  acordei
Com vontade de te ver
E te abraçar um pouco mais
Pensar é bom
No tempo que passou
Sei, já não nos cabe mais
Ficar relembrando por ai
Mas eu acordei
Com saudades de um tempo bom
E é de pensar em rés
Quando os olhos brilham outra vez

Café Expresso

* continuação de pazinha azul

Com o tempo ele adquiriu uma louca mania de colecionar algumas coisas inúteis encontradas por aí, completava uma coleção de chaveiros encontrados pela rua, até mesmo algumas chaves, baralhos incompletos, pedrinhas coloridas, conchinhas e uma pazinha azul.
Aquele dia não era menos esperançoso que os outros, acordou disposto a andar olhando para o chão e descobrir tesouros perdidos. De um pulo levantou da cama, tomou um banho e sentou melancolicamente sobre a cama para amarrar os tênis, de um lado um All Star preto e do outro um vermelho, coisa que só percebera muito mais tarde.
Andava pela rua lendo placa por placa, observando de perto a calçada pra verificar se não continha nada, sentou em uma cafeteria com ar de ator de cinema espanhol e ficou observando a rua, mulheres apressadas equilibravam-se em seus saltos vermelhos, homens engravatados corriam de um lado à outro, os carros pareciam prestes a explodir de tanta buzina.
O cheiro de gasolina o deixava tonto, ao mesmo tempo sentia prazer no cheiro, assim como sentia prazer em folhear rapidamente as páginas dos livros, próximas ao nariz para sentir o cheiro de livro novo, ou velho. Tanto fazia.
_ Capuccino, senhor? - indicou o garçom do café tentando ser simpático com seu sorriso de comercial de manteiga  - Talvez umas rosquinhas de nata para acompanhar? - confiante de que tinha acertado o gosto do cliente esperou uma resposta afirmativa para rodar-se no calcanhar e fazer o pedido.
_ Não. Um expresso por favor, biscoitos de chocolate amanteigado para acompanhar. - e levantou a sobrancelha em tom de desafio.
Mas o garçom para não perder nem o cliente, nem o dom de adivinhação propôs:
_ Devo trazer junto o jornal do estado e um guardanapo-de-colo branco? - levantou apenas a sobrancelha esquerda. - Senhor?
_ Sim, sim. - e olhou para os pés como uma criança envergonhada, percebeu então que os tênis tinham cores diferentes, envergonhou-se um pouco mais.
O garçom finalmente saiu de sua frente. O que lhe deu maior espaço para observar as pessoas lendo el periodico de la mañana ou bebericando seus cafés, experimentando pães e rosquinhas. Uma atenção especial para um homem barbudo, de óculos redondos e terno risca de giz. Parecia um homem sábio, não bebia nada, estava apreensivo, talvez esperasse alguém, o jornal dobrado em cima da mesa certamente não fora lido.
_ Senhor? - uma pausa - Senhor? Aqui está o seu café. - só então ele acordou de suas observações, precisava escrever as cenas que assistia, como precisava.
_ Ah, obrigada.
O café foi empurrado goela a baixo por imagens aflitas das pessoas na rua, da paciência excessiva dos homens cultos frequentadores de café e da relevância de seus sapatos trocados. Mas agora tinha que ir embora, trabalhar, talvez. Pediu a conta, pagou, com direito a gorjeta para o garçom. Olhou para o colo, pegou o guardanapo assinou seu nome, colocou  data e enfiou no bolso detrás das calças. 

Despedida .

Uma pequena roda de despedida, amigos que o vento decide separá-los e o tempo empurra. A mesinha de centro oferece algum doce e uma bebida fraca batida com outros ingredientes. De um lado, com a cabeça encostada no sofá e a barba notoriamente por fazer o mais descabido dos cinco, à sua diagonal a menina dos seus sonhos com um copo na não, deitado ao colo da menina um outro amigo, tão amigo de todos que o apelidaram de irmão. Aos pés deste, outra menina, o que os junta, sem ela não teriam conhecido um ao outro, ou pelo menos não teriam criado tamanho vínculo. Um pouco mais longe ouvindo Jazz em seu MP5, com camiseta branca e braços tatuados o quinto amigo.
Ao longo de um ano, um pouco mais, um pouco menos... dividiram juntos todos os livros que descobriram, músicas e principalmente analisaram um ao outro, paralelamente o tempo que passava. Um filme roda no DVD, ninguém consegue prestar atenção no idioma russo que ecoa pela sala.
_ Quanto tempo? - o barbudinho interrompe o silêncio - Digo, que estamos aqui.
O MP5 é desligado, como que combinado todos levantam da sala e caminham para a sacada, passos largos e rápidos em busca do melhor lugar na rede. A canil vizinhança pressente algo e começa a latir, como uma competição de qual cachorro late mais alto todos latidos ecoam de encontro com o idioma russo da tv.
_ Eu diria que tenho um estilo meio hippie assim, sou vegetariando, gosto de animais, de estrada, história, comunismo, não faço a barba...ops, mas tomo banho - risadas lentas - o cara lá é El Loco, o cara gosta de Jazz, só usa camiseta vermelha, filme de terror e estas calças largas. - pausa pra observar 'o mano'- este outro chato aqui - apontou pro que antes estava deitado, e agora estava sentado aos seus pés - este aqui, deixa eu pensar... é conquistador né? Fica ai ganhando carinho das meninas, íntimo de todas, escuta uns rock, cara cult, lê muito... - olhou pras duas meninas se entreolhando na rede e fez um pouco de espectativa - o que vocês acham delas?
_ Acho gente fina, olha vou falar aqui desta de cá - e pegou no pé da primeira - gatiiiinha que só, animadona, engraçada, gosta de brigadeiro, pipoca e sonha em ir pra Suiça. Agora a outra? Conheço muito, mas não sei o que falar, gatinha também, claro. - o olhou pra outra pessoa completar.
_ Ela tem um estilo não nomeável né? - comentou um - Algo do tipo...
_ Alternativo, meu estilo é alternativo...- pausa - eu vou alternando entre um e outro.
_ Principalmente quando falamos de música, né?
A chuva os tirou da varanda, da casa. Em abraços concluiram a despedida.
Dois ou três dias depois, a menina "do estilo alternativo" recebe um telefonema, quase anônimo:
_ Qual a trilha sonora de hoje? - e a chuva voltou a cair.  

O que me leva até você

O que me leva até você
Também me leva ao ao outro lado da rua
Me leva a ficar de noite vendo a lua
Me trás de volta também
Como pode ter em você
Tanto devaneio quanto na bebida
Que tomava quando me tomou você
E alguém nunca irá dizer
Que o brilho dos meus olhos
Foi em vão quando encontrei você
Minha doce solidão se foi
Agora de só, é só você

Pesquisa

04/08/2009

No final de 2007 eu perdia o sono semanalmente pensando em algum texto. O cansaço físico me impedia levantar da cama para anotar os poemas, textos e frases que vinham à cabeça. Criei então o Segundo Lílian, em Junho de 2008. Postando anotações feitas na madrugada, sonhos rememorados na manhã seguinte, inspirações do meio do sono vespertino. Sem habilidade de escrita tive um blog trágico, perdi meus leitores e a vontade de escrever.
No final daquele ano resolvi criar o Insônia Registrada. Já que todos meus textos eram decididos durante a insônia, ou me tiravam o sono. Era um novo blog, pensado diferente, com novo tema, nova forma de escrita, novo visual - que já foi modificado uma dezena de vezes - além de agora um período de vida bem mais traduzível em letras.
Hoje, o blog já virou um vício. Textos, links, vídeos, descobertas, lembranças... tudo vem pra cá. Tirando o sono de quem lê também. Tamanho vício me levou a criar um blog de esportes, um de filme, participar brevemente de um blog de humor e me fez até perder a vergonha do Segundo Lílian.
Porque segundo Lílian, a insônia será registrada.